Brasiléia, Epitaciolândia, Xapuri e Assis Brasil formam uma das regiões mais importantes do Acre, mas o peso político do Alto Acre ainda pode ser muito maior na Assembleia Legislativa e na Câmara Federal
O Alto Acre chega às eleições de 2026 diante de uma discussão que vai muito além de partidos, coligações ou nomes colocados na disputa. Trata-se da capacidade da região de transformar sua força eleitoral em representação política e, consequentemente, ampliar sua participação nas decisões e na destinação de recursos públicos para Brasiléia, Epitaciolândia, Xapuri e Assis Brasil.
Historicamente, municípios e regiões que conseguem construir bancadas fortes aumentam sua presença no debate político estadual. Deputados estaduais participam diretamente das discussões sobre o orçamento do Estado, apresentam indicações, projetos e emendas parlamentares e atuam politicamente junto ao governo para defender investimentos em áreas como saúde, educação, produção rural, infraestrutura, esporte e assistência social.
Atualmente, o Alto Acre conta com dois deputados estaduais diretamente identificados com a região: Tadeu Hassem, de Brasiléia, e Manoel Moraes, cuja trajetória política está profundamente ligada a Xapuri.
A própria Assembleia Legislativa registra que Tadeu Hassem nasceu em Brasiléia e possui longa trajetória profissional no município, além de já ter exercido funções públicas em Epitaciolândia e Brasiléia. Manoel Moraes, por sua vez, construiu parte importante de sua trajetória profissional e política em Xapuri, onde chegou a comandar o Ibama durante dez anos antes de ingressar na vida parlamentar.
Outras regiões mostram a força de uma bancada regional
O cenário encontrado em outras partes do Acre ajuda a dimensionar a importância da representação territorial.
No Vale do Juruá, por exemplo, cinco deputados estaduais — Nicolau Júnior, Luiz Gonzaga, André Vale, Arlenilson Cunha e Adailton Cruz — apareceram juntos recentemente defendendo pautas ligadas ao desenvolvimento regional durante o lançamento da Expoacre Juruá 2026, em Cruzeiro do Sul.
Nicolau Júnior nasceu em Cruzeiro do Sul, segundo sua biografia oficial na Assembleia Legislativa. Luiz Gonzaga também possui sua trajetória política diretamente ligada ao município e ao Vale do Juruá, região que aparece como uma das prioridades de sua atuação parlamentar.
Sena Madureira também possui representação própria. Gene Diniz nasceu no município e atualmente exerce mandato de deputado estadual. Gilberto Lira também nasceu na zona rural de Sena Madureira e construiu sua trajetória profissional e política no município antes de chegar à Assembleia Legislativa.
Além deles, Tanízio Sá mantém forte atuação política na região do Purus e presença frequente em Sena Madureira, embora sua biografia oficial da Aleac registre seu nascimento em Manoel Urbano.
Esses exemplos ajudam a demonstrar como determinadas regiões do Acre conseguiram formar grupos de parlamentares com vínculos territoriais fortes.
Representação também significa capacidade de disputar recursos
Ter deputados identificados com determinada região não significa que parlamentares de outras cidades não possam destinar recursos para ela. Um deputado estadual representa todo o Acre, assim como um deputado federal eleito pelo estado representa toda a população acreana.
Mas existe uma realidade política que precisa ser considerada: parlamentares normalmente mantêm vínculos mais intensos com determinadas bases eleitorais, municípios e regiões onde construíram suas trajetórias.
As próprias emendas parlamentares mostram a importância desse instrumento. Em documento oficial do Governo do Acre, por exemplo, aparece emenda de Gilberto Lira destinada a Sena Madureira para ações de atenção primária em saúde, com valor total indicado de R$ 1,45 milhão. Outro exemplo é uma iniciativa habitacional anunciada pela Prefeitura de Sena Madureira que contou com recursos de emenda do deputado estadual Gene Diniz.
É justamente nesse ponto que o debate sobre representação regional ganha importância.
Quanto maior a presença de parlamentares comprometidos permanentemente com as demandas de uma região, maior tende a ser sua capacidade de colocar essas necessidades na agenda política, buscar recursos, acompanhar projetos e cobrar investimentos.
Alto Acre pode ampliar seu espaço
Brasiléia, Epitaciolândia, Xapuri e Assis Brasil possuem demandas comuns e uma economia regional interligada. Estradas e ramais, produção agropecuária, comércio fronteiriço, turismo, saúde, educação, segurança pública, pontes e integração com Peru e Bolívia são assuntos que ultrapassam os limites de cada município.
Por isso, a discussão sobre representação política não deve ser encarada simplesmente como uma disputa entre cidades.
É uma discussão sobre desenvolvimento regional.
Hoje, o Alto Acre possui dois deputados estaduais fortemente vinculados à região. Entretanto, considerando o conjunto de seus municípios e sua capacidade eleitoral, existe espaço político para discutir uma representação ainda maior na próxima legislatura.
A eleição de três, quatro ou mais representantes dependerá, naturalmente, da votação individual dos candidatos, do desempenho de partidos e federações e das regras do sistema proporcional. Portanto, não existe número de cadeiras previamente garantido para qualquer região.
O que existe é potencial eleitoral.
Da mesma maneira, o Alto Acre pode buscar novamente maior protagonismo na disputa pelas oito cadeiras que o Acre possui na Câmara dos Deputados.
Voto também define onde estará a força política nos próximos quatro anos
Em períodos eleitorais, candidatos de praticamente todas as regiões percorrem Brasiléia, Epitaciolândia, Xapuri e Assis Brasil em busca de votos. Isso faz parte do processo democrático, já que todo candidato estadual pode pedir votos em qualquer município acreano.
A questão que merece reflexão por parte do eleitor é outra: qual será a relação desse parlamentar com o Alto Acre depois das eleições?
A população pode observar histórico de atuação, emendas destinadas aos municípios, projetos apresentados, presença parlamentar e compromissos assumidos com a região.
Não se trata de estabelecer que alguém deva votar obrigatoriamente em um candidato por sua cidade de origem. O voto é livre, individual e deve considerar propostas, trajetória e capacidade de representação.
Mas também é legítimo discutir se o Alto Acre está conseguindo transformar adequadamente sua população e sua força eleitoral em influência política.
Cada voto concedido a um candidato ajuda a construir uma liderança e uma base eleitoral. Depois da eleição, essa representação terá quatro anos para participar das decisões sobre recursos públicos e políticas que afetam os municípios.
Uma discussão que precisa ultrapassar a eleição
O Alto Acre possui posição estratégica na fronteira brasileira, produção rural crescente, comércio internacional, potencial turístico e cidades que funcionam de maneira cada vez mais integrada.
Fortalecer sua representação política significa aumentar sua voz na discussão sobre hospitais, escolas, ramais, pontes, agricultura, segurança, geração de emprego, infraestrutura urbana e integração fronteiriça.
Cruzeiro do Sul e o Vale do Juruá demonstram como uma região pode reunir vários parlamentares em torno de interesses comuns. Sena Madureira também mantém representantes diretamente ligados ao município.
O Alto Acre tem hoje Tadeu Hassem e Manoel Moraes como dois nomes da atual legislatura vinculados à região. O desafio colocado para 2026 é saber se Brasiléia, Epitaciolândia, Xapuri e Assis Brasil conseguirão ampliar essa representação.
Mais do que uma discussão sobre nomes ou partidos, é uma discussão sobre quanto peso político o Alto Acre pretende ter nos próximos quatro anos.
Porque uma região economicamente importante, estratégica para a fronteira e com milhares de eleitores também precisa fazer sua força aparecer onde as decisões são tomadas.

