Ex-governador questiona realização de buscas às vésperas das eleições, cita decisão do STF e levanta suspeita de vazamento de informações; Polícia Federal investiga possíveis irregularidades em contratos públicos
O ex-governador do Acre e candidato ao Senado Gladson Camelí (Progressistas) voltou a se pronunciar nesta quarta-feira (23) sobre a operação da Polícia Federal que teve sua residência, em Rio Branco, entre os endereços alvos de mandados de busca e apreensão. Em vídeo divulgado nas redes sociais, Camelí classificou a ação como uma “perseguição” e garantiu que continuará normalmente com sua campanha eleitoral.
A operação ocorreu a menos de duas semanas do primeiro turno das Eleições 2026. A proximidade com a votação tornou-se um dos principais argumentos apresentados pelo candidato e por sua defesa para questionar a medida judicial.
No pronunciamento, Gladson afirmou que sempre respeitou a Justiça e as instituições, mas disse não acreditar que elas devam ser utilizadas para atender a interesses políticos.
“Meus amigos, vocês sabem que eu sempre respeitei a Justiça e as instituições, porque nunca acreditei que elas poderiam ser utilizadas para atender a interesses políticos”, declarou.
Camelí também questionou como jornalistas e blogueiros teriam chegado às proximidades de sua residência antes da chegada dos agentes. O candidato levantou a hipótese de vazamento antecipado da operação, mas, até o momento, não foram apresentadas publicamente provas que demonstrem quem teria fornecido essas informações ou que o eventual vazamento tenha ocorrido com finalidade eleitoral.
Candidato cita decisão do STF
Outro ponto levantado por Gladson e por sua defesa envolve a ADPF 1017, do Supremo Tribunal Federal. A defesa sustenta que o entendimento estabelecido pelo STF restringe determinadas medidas cautelares contra candidatos a cargos majoritários no período imediatamente anterior às eleições, justamente para evitar interferências indevidas na disputa eleitoral.
“E isso vale para todo mundo. Por que só contra mim isso não foi respeitado?”, questionou Gladson no vídeo, ao defender que a mesma proteção deveria ser aplicada à sua candidatura.
A defesa, comandada pelo advogado Erick Venâncio, já havia divulgado nota classificando a operação como “abusiva” e de “clara perseguição”. Essas caracterizações representam a posição de Camelí e de sua equipe jurídica, e não uma conclusão judicial sobre a atuação da Polícia Federal ou sobre as razões da decisão que autorizou as buscas.
Operações Ptolomeu IV e Umbra
A ação faz parte das operações Ptolomeu IV e Umbra, deflagradas pela Polícia Federal. Segundo informações divulgadas sobre a investigação, foram cumpridos 28 mandados de busca e apreensão no Acre e em outros estados.
A Ptolomeu IV investiga suspeitas relacionadas a contratos públicos, entre elas possíveis irregularidades e superfaturamento estimado em aproximadamente R$ 1,2 milhão na construção da nova sede do Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac). As apurações envolvem suspeitas de desvio de recursos públicos e lavagem de dinheiro. As investigações estão em andamento, e as suspeitas apuradas pela PF não equivalem, por si só, a uma condenação.
Paralelamente, a Operação Umbra investiga a existência de uma suposta estrutura destinada a obter informações sobre ações da própria Polícia Federal para beneficiar investigados de fases anteriores da Ptolomeu. Durante as diligências, cerca de R$ 1 milhão em espécie foram apreendidos e três pessoas acabaram presas em flagrante por posse ilegal de armas, segundo informações divulgadas sobre a operação.
Na residência de Gladson, reportagens locais informaram que foram apreendidos seu aparelho celular e três veículos.
“Não vou baixar a cabeça”
No pronunciamento desta quarta-feira, Gladson relacionou a operação ao momento eleitoral e afirmou acreditar que está sendo perseguido por adversários. Ele também associou a ação à sua posição nas pesquisas eleitorais. Trata-se de uma interpretação apresentada pelo próprio candidato, sem comprovação pública de que a operação tenha sido determinada com objetivo de interferir na eleição.
Apesar do episódio, Camelí afirmou que não pretende suspender ou reduzir suas atividades eleitorais.
“Uma eleição se perde e se ganha no voto. E eu não vou baixar a cabeça nem aceitar esse tipo de perseguição. Vou continuar nas ruas, conversando com as pessoas e olhando olho no olho de cada um”, declarou.
O caso acrescenta mais um capítulo à situação jurídica e eleitoral do ex-governador na reta final da campanha. Além das investigações criminais, Gladson teve o registro de sua candidatura ao Senado indeferido pelo TRE-AC, mas recorreu da decisão e permanece em campanha com a candidatura sub judice enquanto os recursos são analisados pela Justiça Eleitoral.
Assim, enquanto a Polícia Federal mantém as investigações e a Justiça analisa os diferentes processos envolvendo o ex-governador, Gladson Camelí afirma que seguirá nas ruas em busca de votos e promete contestar judicialmente as medidas adotadas contra ele.

