Governo Trump nega interferência nas eleições brasileiras após suspeitas levantadas por Lula

Departamento de Estado afirma que escolha do próximo presidente cabe exclusivamente aos brasileiros; declaração ocorre após Lula demonstrar preocupação com Marco Rubio e possível uso de inteligência artificial no processo eleitoral

O governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, negou qualquer intenção de interferir nas eleições brasileiras de 2026. A manifestação ocorreu depois de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, demonstrar preocupação com uma possível atuação estrangeira no processo eleitoral e mencionar especificamente o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio.

Em entrevista exclusiva à CNN Brasil, divulgada nesta quarta-feira (23), a porta-voz do Departamento de Estado dos Estados Unidos, Amanda Roberson, afirmou que interferir em eleições realizadas em outros países não integra a estratégia da administração Trump.

Segundo Roberson, a política externa norte-americana está concentrada em temas considerados prioritários pelo governo, entre eles segurança, prosperidade econômica e paz. A representante do Departamento de Estado ressaltou que a eleição presidencial brasileira é uma decisão que pertence aos próprios brasileiros.

A porta-voz também negou que integrantes do governo dos Estados Unidos tenham discutido ações destinadas a influenciar os rumos da disputa política brasileira. Segundo ela, Washington reconhece a soberania do Brasil e entende que a definição do próximo presidente cabe exclusivamente ao eleitorado brasileiro.

Apesar de acompanhar a campanha e demonstrar interesse pelo resultado das urnas, o Departamento de Estado afirmou esperar que o Brasil realize eleições livres e transparentes. Roberson também declarou que os Estados Unidos pretendem manter relações com o próximo governo brasileiro independentemente de sua orientação política.

Declarações respondem a preocupação manifestada por Lula

A manifestação do governo Trump ocorre dois dias depois de Lula abordar o assunto durante entrevista à jornalista Christiane Amanpour, da CNN, concedida na segunda-feira (21).

Na ocasião, o presidente brasileiro afirmou estar preocupado com uma possível interferência estrangeira e mencionou indícios relacionados ao uso de inteligência artificial. Lula também citou nominalmente Marco Rubio, destacando a proximidade política que atribui ao secretário de Estado com integrantes da família Bolsonaro.

O próprio presidente, entretanto, fez uma ressalva durante a entrevista e afirmou que, naquele momento, se tratava de uma suspeita, sem apresentar evidências conclusivas de interferência de Rubio na eleição.

Lula também revelou ter conversado anteriormente com Donald Trump sobre o assunto. Segundo o presidente brasileiro, Trump teria afirmado que não pretendia se envolver na eleição do Brasil. Lula disse considerar essa postura necessária para preservar a relação entre os dois países.

Abin emitiu alerta sobre risco de influência externa

A preocupação manifestada por Lula também ocorre após a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) produzir um relatório sobre possíveis riscos externos ao processo eleitoral.

Segundo reportagem da CNN Brasil, a Abin encaminhou no fim de agosto ao Palácio do Planalto, ao Ministério da Justiça e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) um documento no qual elevou a possibilidade de influência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras a um chamado “nível de criticidade”.

O documento analisou movimentações e diretrizes da política externa norte-americana e apontou uma tendência de aumento das pressões sobre o Brasil. O relatório representa uma avaliação de risco feita pela inteligência brasileira e, por si só, não comprova que o governo dos Estados Unidos esteja interferindo no processo eleitoral.

Reportagens da CNN também informam que integrantes do governo brasileiro acompanham diferentes frentes que consideram capazes de produzir influência externa sobre o ambiente político, incluindo manifestações de autoridades norte-americanas, movimentações digitais e contatos de grupos políticos brasileiros nos Estados Unidos. Essas avaliações são atribuídas ao governo brasileiro e não significam que tenha sido estabelecida a existência de uma operação de interferência.

Estados Unidos não apontam candidato preferido

Durante a entrevista desta quarta-feira, Amanda Roberson também foi questionada sobre se Donald Trump ou Marco Rubio teriam preferência por algum dos candidatos à Presidência da República.

A porta-voz não indicou preferência. Segundo ela, a escolha pertence ao povo brasileiro, e os Estados Unidos mantiveram, historicamente, relações com governos brasileiros situados em diferentes posições do espectro político.

A representante norte-americana acrescentou que Washington pretende continuar trabalhando com o governo que sair das urnas, especialmente em áreas consideradas de interesse comum para os dois países.

Segurança também entrou na discussão

Outro assunto abordado na entrevista foi o combate ao crime organizado. O Departamento de Estado defendeu uma atuação mais intensa do Brasil contra organizações como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho.

Questionada sobre a possibilidade de um eventual governo de Flávio Bolsonaro apresentar maior alinhamento com Washington nessa área, Roberson evitou fazer comparação entre os candidatos e voltou a afirmar que caberá aos brasileiros escolher o próximo presidente.

Segundo a porta-voz, os Estados Unidos trabalharão com o governo eleito, independentemente de sua posição política, principalmente em assuntos relacionados à segurança e a outros desafios compartilhados pelos dois países.

As declarações do Departamento de Estado colocam publicamente o governo Trump em posição contrária a qualquer interferência na eleição brasileira. Ao mesmo tempo, o governo Lula mantém atenção sobre possíveis movimentos externos, enquanto a Abin acompanha riscos de influência estrangeira.

Até o momento, as fontes consultadas não apresentam comprovação pública de que o governo Trump ou Marco Rubio tenham realizado uma operação destinada a interferir no resultado das eleições brasileiras.

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