Candidato ao Senado foi alvo de mandado de busca e apreensão nesta terça-feira (22); defesa questiona momento da operação e levanta dúvidas sobre suposta divulgação antecipada de informações
A campanha do ex-governador do Acre e candidato ao Senado Gladson Camelí (PP) divulgou nesta terça-feira (22) uma nota oficial após a realização de uma operação da Polícia Federal que teve o político entre os alvos em Rio Branco.
Na manifestação, publicada nas redes sociais do candidato, a campanha demonstra preocupação com o momento em que a operação foi realizada, durante a reta final da campanha eleitoral, e questiona a forma como informações relacionadas às diligências teriam começado a circular publicamente.
Segundo a defesa, influenciadores, blogs e páginas que, na avaliação da campanha, possuem vínculos políticos com adversários teriam divulgado informações sobre a ação antes que o próprio candidato e seus advogados tivessem acesso integral aos fundamentos da medida. A alegação de divulgação antecipada é da defesa e, até o momento, não representa uma conclusão das autoridades responsáveis pela investigação.
Gladson foi alvo de busca e apreensão
A manifestação ocorreu depois que agentes da Polícia Federal cumpriram mandado de busca e apreensão na residência de Gladson Camelí, em Rio Branco, durante as operações Ptolomeu IV e Umbra.
De acordo com informações divulgadas pela imprensa local, durante as diligências teriam sido apreendidos o aparelho celular do candidato e três veículos que estavam no imóvel.
A Polícia Federal informou oficialmente que as duas operações cumpriram, ao todo, 28 mandados de busca e apreensão em Rio Branco e Cruzeiro do Sul, no Acre; Maringá, no Paraná; e Navegantes, em Santa Catarina. As determinações judiciais foram expedidas pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), onde os casos estão em tramitação.
Além das buscas, o STJ autorizou sequestro de bens e valores e determinou diferentes medidas cautelares envolvendo investigados. A PF informou ainda que aproximadamente R$ 1 milhão em dinheiro foi encontrado com alguns dos alvos e que três suspeitos acabaram presos em flagrante por posse ilegal de armas de fogo.
Ptolomeu IV investiga contratos envolvendo sede do Imac
Uma das frentes da investigação é a Operação Ptolomeu IV, realizada pela Polícia Federal em conjunto com a Controladoria-Geral da União (CGU).
Segundo a PF, as investigações envolvem contratos relacionados à construção da nova sede do Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac). Auditoria realizada pela CGU teria apontado superfaturamento por inexecução parcial estimado em aproximadamente R$ 1,2 milhão, referente a serviços que teriam sido medidos e pagos, mas não totalmente executados.
A Polícia Federal afirma também ter identificado indícios de que recursos provenientes de contratos públicos teriam sido desviados para despesas particulares e possíveis vantagens indevidas a agentes públicos.
Outra linha da investigação analisa a empresa contratada posteriormente para concluir a obra. Segundo a PF, existem indícios de possível sucessão empresarial e vínculos entre pessoas relacionadas à nova contratada e empresas que já haviam aparecido em fases anteriores da Operação Ptolomeu.
As apurações ainda estão em andamento, e os investigados têm direito à ampla defesa e ao contraditório.
Operação Umbra apura possível vazamento de informações
Já a Operação Umbra investiga um aspecto diferente.
A Polícia Federal afirma ter encontrado evidências da possível existência de um núcleo de contrainteligência estruturado para obter informações sobre operações policiais, incluindo movimentações de equipes e viaturas.
Segundo os investigadores, a finalidade seria antecipar ações da PF e permitir que investigados adotassem medidas capazes de reduzir a efetividade das diligências.
A investigação também apura a possível participação de um ex-servidor terceirizado e de um agente da própria Polícia Federal no repasse indevido de informações relacionadas às operações.
De acordo com a PF, os investigados poderão responder, conforme a participação individual eventualmente comprovada, por crimes como organização criminosa, fraude em licitação, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e embaraço à investigação de organização criminosa.
Defesa questiona operação durante período eleitoral
Após as diligências, a assessoria jurídica de Gladson Camelí reagiu e questionou principalmente o momento em que a operação foi realizada.
A defesa classificou as medidas como abusivas e alegou que poderiam interferir no processo eleitoral. Também afirmou que pretende discutir judicialmente a compatibilidade das cautelares com entendimento do Supremo Tribunal Federal relacionado à aplicação de determinadas medidas contra candidatos a cargos majoritários nos dias que antecedem uma eleição.
Entre os argumentos apresentados está uma decisão do STF na ADPF 1017. A defesa sustenta que o entendimento firmado pela Suprema Corte estabeleceria limitações para medidas cautelares capazes de interferir na disputa eleitoral nesse período.
A aplicação desse precedente especificamente ao caso de Gladson, entretanto, é uma tese apresentada pela defesa e dependerá da análise das instâncias judiciais competentes.
Campanha diz que candidato continuará colaborando
Apesar das críticas à operação, a campanha informou que Gladson Camelí e seus advogados permanecem à disposição das autoridades para prestar os esclarecimentos considerados necessários.
Em manifestação pessoal publicada nas redes sociais, o candidato afirmou confiar na Justiça e no esclarecimento dos fatos. Também declarou confiar na capacidade dos eleitores acreanos de acompanhar os acontecimentos e formar sua própria opinião antes da votação.
A nova operação acrescenta mais um componente jurídico à campanha de Gladson ao Senado. Paralelamente às investigações da Polícia Federal, o candidato enfrenta uma disputa na Justiça Eleitoral relacionada ao registro de sua candidatura.
Também nesta terça-feira (22), o Tribunal Regional Eleitoral do Acre (TRE-AC) manteve, por unanimidade, o indeferimento do registro da candidatura ao Senado ao julgar embargos apresentados pela defesa. Como ainda existem possibilidades recursais, a candidatura permanece sub judice, situação que permite a continuidade dos atos de campanha enquanto não houver decisão definitiva.

