Por Reginaldo Guerra
A credibilidade do evangelho tem sido colocada em xeque, não por falhas em sua mensagem central — baseada no amor, na justiça e na integridade —, mas pela conduta de muitos de seus representantes. A dissonância entre o que se prega e o que se vive tornou-se um problema grave no meio evangélico, gerando descrença e afastamento por parte da sociedade.
Quando líderes e fiéis proclamam ideais morais e espirituais, mas agem com manipulação, julgamento implacável ou até corrupção, instala-se uma incoerência que não passa despercebida. Essa contradição gera o que psicólogos chamam de dissonância cognitiva — o incômodo mental causado pela distância entre discurso e prática — e ela tem corroído silenciosamente a confiança da coletividade na mensagem cristã.
Essa crise de autenticidade não implica que o evangelho tenha perdido seu valor, mas sim que muitos dos seus supostos defensores deixaram de vivê-lo com coerência. Há uma diferença fundamental entre crer e viver a verdade. A crença pode ser moldada por tradições ou emoções; já a vivência exige coerência, autocrítica e disciplina diária.
Transformação verdadeira — seja espiritual ou ética — se revela nos gestos concretos: na forma como tratamos o próximo, na honestidade no trabalho, na disposição de viver com integridade mesmo em meio a conflitos morais. Sem essa base prática, a fé se converte em mero discurso, um ornamento que serve mais para prestígio social do que para mudança real de vida.
Mas há caminhos possíveis para recuperar a autenticidade perdida.
O primeiro deles é o autoexame e o arrependimento genuíno. Antes de julgar os outros, é necessário revisitar as próprias falhas, reconhecer erros e buscar uma fé mais honesta e menos performática.
Outro passo está em resgatar o espírito da comunidade servidora. A história do evangelho nasce em contextos de inclusão e serviço aos marginalizados. Igrejas que se voltam a esse DNA original — por meio de ações sociais, escuta empática e luta por justiça — acabam restaurando, em parte, a credibilidade do que pregam.
Por fim, a transparência institucional é indispensável. Em tempos de redes sociais e fiscalização pública, já não é possível manter práticas obscuras dentro das igrejas. A integridade exige clareza na gestão de recursos, nos processos decisórios e na postura ética de seus líderes.
A tragédia, portanto, não está na existência de crentes falhos — pois falhar é humano —, mas na insistência em manter uma religiosidade que prega a verdade sem se submeter à obrigação de vivê-la. Enquanto a fé for tratada como espetáculo, e não como instrumento de transformação interior e social, sua reputação continuará em declínio.
A resposta não está em abandonar o evangelho, mas em redescobri-lo como um chamado radical à prática do amor, da justiça e da integridade. Um desafio permanente, mas essencial.

