POR CNN BRASIL
Investigações detalham que organização criminosa usava indústria da música e entretenimento digital como forma de movimentar valores, que seriam mais de R$ 1,6 bilhão em menos de dois anos
A Polícia Federal deflagrou, na manhã desta quarta-feira (15), a “Operação Narco Fluxo”, com o objetivo de desarticular um grande esquema de lavagem de dinheiro. Entre os presos da ação estão dois dos maiores nomes do atual cenário artístico brasileiro, os MCs de funk Ryan SP e Poze do Rodo, além de um dos principais donos de páginas sobre famosos do Brasil, Raphael Sousa Oliveira, criador da Choquei.
Segundo as investigações, os MCs e influenciadores exerciam um papel fundamental no funcionamento da organização criminosa. As apurações apontam que o grupo usava a indústria da música e do entretenimento digital como uma das formas de movimentar valores ilícitos, que somaram aproximadamente R$ 1,6 bilhão em menos de dois anos.
Papel de artistas e influenciadores
O esquema atuava sob o que os investigadores chamam de “escudo de conformidade”, que foi definido pela projeção artísitca e o alto engajamento dos envolvidos.
O fator seria determinante para naturalizar as movimentações financeiras, o que, de acordo com as investigações, serviria para mascarar recursos vindos do tráfico de drogas, jogos de azar e rifas digitais como receitas legítimas do setor artístico.
Ryan Santana dos Santos, o MC Ryan SP, é apontado como um elemento central no papel de projeção pública. Os apuradores detalham que a base de seguidores do artista era uada para dar aparência de legalidade ao patrimônio e suavizar alertas de fiscalização. Já Raphael Sousa Oliveira, dono da Choquei, também é apontado como um dos investigados de integrar o esquema.
Conexão com PCC
As informações colhidas nas investigações ainda apontam para uma possível conexão do esquema de lavagem de dinheiro com o PCC (Primeiro Comando da Capital), a maior facção criminosa do país.
O elo entre os dois mundos é apontado como Frank Magrini, indicado como operador financeiro da organização. Segundo as apurações, há indícios de que Magrini teria financiado o começo da carreira de Ryan, em 2014, e que a relação envolvia o pagamento de “mensalidades” sistemáticas por locais comerciais do grupo.
Mecanismos do esquema
Três eixos principais foram identificados nas investigações para ocultar a origem do dinheiro: pulverização, dissimulação e interposição de terceiros.
- Pulverização: comercialização de ingressos, pordutos e ativos digitais para inserir recursos sem lastro econômico comprovado;
- Dissimulação: uso de criptoativos, transporte de dinheiro em espécie e múltiplas transações entre contas para dificultar o rastreamento;
- Interposição de terceiros: utilização de operadores logísticos, familiares, e o “aluguel de CPFs” (laranjas) para ocultar os reais beneficiários.
Entenda a operação
A “Operação Narco Fluxo”, segundo a PF, tem como principal objetivo desarticular uma organização criminosa voltada à movimentação ilícita de valores, inclusive por meio de criptoativos, no Brasil e no exterior.
As ações desta manhã são fruto de investigações anteriores que identificaram a atuação do grupo em esquemas de lavagem de capitais.
Narco Fluxo: entenda operação que prendeu MCs Poze do Rodo e Ryan SP
De acordo com a corporação, os envolvidos usavam um sistema para ocultar e dissimular os valores, incluindo operações financeiras de alto valor, transporte de numerário em espécie e transações com criptoativos. O volume financeiro movimentado pelo grupo ultrapassa R$ 1,6 bilhão, segundo as investigações.
Ao todo, foram cumpridos 33 de 39 mandados de prisão temporária e 45 de busca e apreensão em endereços localizados nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Espírito Santo, Maranhão, Santa Catarina, Paraná, Goiás e no Distrito Federal. Além disso, também foram realizados
Também foram determinadas medidas de bloqueio patrimonial, como o sequestro de bens e a imposição de restrições societárias. O objetivo é interromper as atividades ilícitas e preservar ativos para eventual ressarcimento.
Além disso, foram apreendidos diversos veículos de luxo. Os valores das apreensões giram em torno de R$ 20 milhões.
O que dizem as defesas
A reportagem entrou em contato com a defesa de Poze, que afirmou desconhecer os autos ou teor do mandado de prisão. A defesa afirmou ainda que, “com acesso aos mesmos, se manifestará na Justiça para restabelecer sua liberdade e prestar os devidos esclarecimentos ao Poder Judiciário.”
Por sua vez, a defesa de Ryan SP afirmou que “até o presente momento não teve acesso ao procedimento que tramita sob sigilo, razão pela qual está impossibilitada de apresentar manifestação específica sobre os fatos.”
Prisão de MC Ryan SP: “Verdade será devidamente demonstrada”, diz defesa
Veja nota na íntegra:
“A defesa técnica de MC Ryan informa, de forma respeitosa, que até o presente momento não teve acesso ao procedimento que tramita sob sigilo, razão pela qual está impossibilitada de apresentar manifestação específica sobre os fatos.
Ressalta-se, contudo, a absoluta integridade de MC Ryan, bem como a lisura de todas as suas transações financeiras. Todos os valores que transitam por suas contas possuem origem devidamente comprovada, sendo submetidos a rigoroso controle e ao regular recolhimento de tributos, o que sempre foi observado de maneira contínua e responsável.
A defesa confia plenamente que os esclarecimentos necessários serão prestados oportunamente, acreditando que, já no início da investigação, a verdade dos fatos será devidamente demonstrada.”
A CNN Brasil tenta localizar a defesa de Raphael Sousa Oliveira, que presta depoimento na Polícia Federal, e de outros citados. O espaço está aberto para manifestações.

