Tem eleição em que o eleitor escolhe entre várias opções. Em outras, precisa procurar uma opção. E, olhando para a disputa deste ano, principalmente para deputado federal no Alto Acre, parece que estamos vivendo o segundo caso.
A verdade pode incomodar, mas precisa ser dita: politicamente, nossa região não consegue se fortalecer como deveria.
Temos candidaturas que aparecem eleição após eleição. Muda o cargo, muda a eleição, muda o discurso, mas alguns nomes continuam os mesmos. Daqui a pouco, se abrir seleção para motorista de caminhão, é capaz de aparecer candidatura também. Virou quase uma tradição eleitoral, piada pura.
Não citarei nomes. Nem precisa. Quem acompanha a política de Brasiléia sabe perfeitamente do que estou falando.
Existe, desta vez, uma candidatura feminina estreante que considero uma alternativa. É um nome novo nas urnas, embora ainda sem a experiência eleitoral de outros concorrentes. Por outro lado, tem ao seu lado um verdadeiro “macaco velho” da política acreana, alguém que conhece muito bem esse jogo. Portanto, gostando ou não, é uma opção que está colocada para avaliação do eleitor.
Mas é pouco.
Para uma região com a importância de Brasiléia, Epitaciolândia, Xapuri e Assis Brasil, deveríamos chegar a uma eleição para deputado federal discutindo dois ou três nomes realmente competitivos, capazes não apenas de receber votos aqui, mas de invadir eleitoralmente outras regiões do Acre.
Acontece justamente o contrário.
São os outros que vêm buscar nossos votos.
E depois ninguém entende por que candidatos como Coronel Ulysses, Socorro Neri, Antônia Lúcia e Fábio Rueda e tantos outros conseguem crescer eleitoralmente por estas bandas.
A resposta é simples: existe espaço.
Se você deixa o campo vazio, alguém ocupa.
Não podemos reclamar de candidato de fora pedindo voto no Alto Acre. Eles estão certíssimos. Política se faz buscando voto onde o voto estiver.
A pergunta constrangedora é: cadê os nossos candidatos buscando milhares de votos fora daqui?
Cadê uma liderança de Brasiléia chegando forte em Rio Branco? Cadê um candidato do Alto Acre entrando pesado em Cruzeiro do Sul, Sena Madureira, Tarauacá e Feijó?
Quase sempre estamos preocupados em defender nosso próprio quintal enquanto outros estão disputando o estado inteiro.
A política de Brasiléia precisa crescer
Brasiléia possui história política, população, economia e importância estratégica suficientes para produzir grandes lideranças estaduais.
Mas há algum tempo nossa política parece pequena demais para o tamanho que a região deveria ter.
É muita discussão sobre vereador, prefeito, vice, grupo A, grupo B, quem brigou com quem, quem saiu de um lado e foi para outro, quem será candidato daqui a dois anos…
Enquanto isso, quem está pensando Brasília?
Quem está preparando uma liderança hoje para disputar seriamente uma cadeira federal amanhã?
Uma candidatura competitiva a deputado federal não nasce em agosto de ano eleitoral. Precisa ser construída durante anos.
E enquanto ficamos nas nossas disputas paroquiais, outras regiões fazem política.
Sena Madureira sabe fazer isso.
Cruzeiro do Sul sabe fazer isso.
Rio Branco nem precisa comentar.
E nós?
Nós comemoramos quando conseguimos uma emenda miserável de um deputado que recebeu nossos votos, quando poderíamos trabalhar politicamente para ter alguém do próprio Alto Acre sentado naquela cadeira.
Não estou desmerecendo parlamentar de nenhuma região. Quem trabalha pelo Alto Acre merece reconhecimento independentemente de onde nasceu ou onde possui sua base eleitoral.
Mas convenhamos: uma coisa é ter um deputado que ajuda a região. Outra é a região ter deputado.
Existe uma enorme diferença.
Uma cadeira em Brasília vale muito
Não estamos falando apenas de prestígio político.
Deputados federais participam diretamente do processo orçamentário e dispõem de instrumentos como as emendas individuais impositivas, além da participação política nas emendas de bancada e de comissão e da capacidade de articulação junto aos ministérios e ao Governo Federal.
Ao longo de quatro anos, estamos falando de uma capacidade enorme de direcionar, articular e viabilizar investimentos.
Dinheiro para saúde.
Dinheiro para ramais.
Dinheiro para equipamentos.
Dinheiro para agricultura.
Dinheiro para escolas.
Dinheiro para infraestrutura.
Dinheiro para os municípios.
Por isso, perder representação política custa caro.
Muito caro.
Enquanto determinadas regiões conseguem eleger seus representantes e aumentar sua força política, o Alto Acre corre novamente o risco de assistir à eleição da bancada federal pela televisão.
O problema não são os candidatos de fora
É fácil dizer:
“Fulano só aparece aqui na eleição.”
Tudo bem.
Mas se fulano aparece e leva milhares de votos, talvez devêssemos perguntar por que nossos próprios políticos não conseguiram convencer esses mesmos eleitores a votar em alguém daqui.
O problema não é o candidato de fora vir buscar voto. O problema é nós entregarmos o voto porque não conseguimos construir alternativas locais suficientemente fortes.
E isso não começou agora.
É resultado de anos de uma política regional que não conseguiu produzir um projeto coletivo de poder.
Temos políticos.
Temos candidatos.
Temos grupos.
Temos vereadores, apesar meuitos serem muito fraquinhos.
Temos lideranças.
O que não temos é um projeto consistente para transformar tudo isso em representação federal.
E provavelmente não será desta vez
Gostaria muito de chegar ao fim desta eleição e escrever uma coluna dizendo que Brasiléia ou o Alto Acre conquistou uma cadeira na Câmara dos Deputados.
Gostaria de ver nossa região se transformar em um grande reduto político, respeitado eleitoralmente por todo o Acre.
Mas, olhando o cenário colocado até aqui, principalmente para deputado federal, não consigo enxergar essa força.
Talvez apareça uma surpresa. Eleição existe justamente porque quem decide é o eleitor.
Mas hoje minha impressão é de que não será desta vez.
Outras regiões continuarão elegendo representantes. Outros candidatos continuarão vindo buscar votos aqui. E nós provavelmente continuaremos dependendo da boa vontade e da parceria política de parlamentares cuja principal base eleitoral está a centenas de quilômetros do Alto Acre.
Depois da eleição começaremos tudo novamente.
Discussão sobre prefeito.
Discussão sobre vereador.
Briga de grupo.
Candidatura repetida.
Os mesmos personagens, mesmas caras, sempre as mesmas.
E quatro anos depois alguém perguntará:
“Por que o Alto Acre não tem deputado federal?”
Talvez porque, enquanto algumas regiões fazem projeto político, nós ainda estamos fazendo política de ocasião.
E quem não constrói seu próprio espaço na política acaba ocupando o espaço que os outros deixam.
Quando deixam.
Este artigo é de caráter opinativo e expressa exclusivamente a análise e o posicionamento do autor.

