Brasiléia: 116 anos de história, resistência e integração na fronteira acreana

FONTE: INSTAGRAN CARLOS LEANDRO

Fundada às margens do Rio Acre, a antiga Vila Brasília cresceu em frente à cidade boliviana de Cobija e se transformou em símbolo da união entre povos, culturas e histórias

Brasiléia não é apenas um município localizado na fronteira do Brasil com a Bolívia. É uma terra marcada pela coragem de seus pioneiros, pela força dos povos originários, pelo trabalho dos seringueiros e pela convivência cotidiana entre brasileiros e bolivianos. Aos 116 anos de fundação, completados em 3 de julho de 2026, a cidade carrega uma trajetória de resistência, integração e amor às suas raízes.

A história oficial de Brasiléia começou no dia 3 de julho de 1910, quando a localidade ainda era chamada de Brasília. O povoado surgiu às margens do Rio Acre, em terras do antigo Seringal Carmem, numa área originalmente habitada pelos povos indígenas Catiana e Maiteneca.

A fundação ocorreu em um período no qual o extrativismo da borracha movimentava a economia acreana e atraía trabalhadores, comerciantes, seringalistas e autoridades para o Alto Acre. A localização estratégica contribuiu para que o pequeno núcleo urbano se tornasse um importante ponto de circulação de pessoas, mercadorias e embarcações.

Segundo o registro histórico da Prefeitura de Brasiléia, os primeiros passos para a criação da cidade também estiveram relacionados à instalação da Justiça do 3º Termo Judiciário da Comarca de Xapuri no Seringal Carmem. Entre os nomes ligados à fundação aparecem João Cordeiro Barbosa, José Antônio de Almeida, Olegário de Araújo França, Augusto de Melo Azevedo, Luiz Barreto Corrêa de Menezes, Ronaldo Melo, Raimundo Furtado, Fulgêncio Cruz e José Bernardo. Prefeitura de Brasiléia

Em 1938, Brasília foi elevada à categoria de município e instalada oficialmente no ano seguinte. Entretanto, para evitar confusão com o nome reservado à futura capital brasileira, a cidade passou a se chamar Brasiléia em 1943. A mudança foi estabelecida pelo Decreto-Lei Federal nº 6.163, de 31 de dezembro daquele ano.

O nome Brasiléia reúne referências ao Brasil e à hiléia amazônica, palavra utilizada para representar a imensa floresta da região. Mais do que uma alteração administrativa, a nova denominação ajudou a consolidar a identidade de uma cidade genuinamente brasileira, amazônica e fronteiriça.

Brasiléia e Cobija: cidades separadas pelo rio e unidas pela vida

Em frente a Brasiléia, do outro lado do Rio Acre, encontra-se Cobija, capital do Departamento de Pando, na Bolívia. Fundada em 1906, a cidade boliviana cresceu lado a lado com a vizinha brasileira.

Ao longo de mais de um século, Brasiléia e Cobija estabeleceram uma relação que ultrapassa os limites geográficos e diplomáticos. Famílias foram constituídas entre os dois países, amizades atravessaram gerações e o comércio se tornou parte fundamental da rotina fronteiriça.

Brasileiros trabalham, estudam, fazem compras e mantêm negócios na Bolívia, enquanto bolivianos atravessam diariamente a fronteira para buscar serviços, visitar familiares e participar da vida econômica e social do lado brasileiro. Essa convivência transformou a região em um espaço multicultural, no qual idiomas, costumes, culinária e tradições se encontram.

O Rio Acre, portanto, nunca representou somente uma linha de separação. Durante décadas, foi uma das principais vias de transporte e comunicação da região. Por suas águas chegaram trabalhadores, alimentos, ferramentas e mercadorias. Suas margens acompanharam o nascimento das cidades e testemunharam importantes transformações econômicas e sociais.

O mesmo rio que trouxe desenvolvimento também provocou momentos de sofrimento. Em diferentes períodos, Brasiléia enfrentou grandes enchentes, entre elas a histórica alagação de 2024, que atingiu residências, estabelecimentos comerciais e prédios públicos. Mesmo diante das perdas, a população demonstrou solidariedade e capacidade de reconstrução.

Imagens que venceram o tempo

Os antigos registros de Brasiléia e Cobija possuem ainda maior importância por estarem relacionados às expedições lideradas pelo marechal Cândido Rondon. Parte dessas imagens foi produzida pelo major Luiz Thomaz Reis, militar, fotógrafo e cinegrafista considerado um dos pioneiros do cinema documental brasileiro.

Luiz Thomaz Reis foi responsável por transformar as viagens da Comissão Rondon em um extraordinário patrimônio visual. Em 1912, foi criada a Seção de Cinematografia e Fotografia da Comissão Rondon, e os primeiros registros cinematográficos começaram a ser realizados nos anos seguintes. Universidade Estadual de Campinas

Posteriormente, imagens produzidas entre 1924 e 1930 foram reunidas no documentário silencioso “Ao Redor do Brasil”, lançado em 1932. Com aproximadamente 80 minutos, a obra apresenta registros das incursões realizadas por Luiz Thomaz Reis pelas regiões Norte e Centro-Oeste do país. Mostra Ecofalante

Mais do que simples cenas antigas, esses registros preservam os modos de vida, as paisagens, as construções e a movimentação de uma fronteira que ainda estava sendo formada. Cada imagem representa uma janela aberta para o passado e permite que as novas gerações conheçam parte da Brasiléia do início do século XX.

Uma cidade construída por muitas mãos

A história de Brasiléia não foi escrita somente por autoridades, seringalistas ou personagens conhecidos. Ela foi construída diariamente por indígenas, seringueiros, trabalhadores rurais, comerciantes, professores, servidores públicos, barqueiros, agricultores, profissionais da saúde, comunicadores e famílias que escolheram a fronteira para viver.

Também está presente na luta de lideranças como Wilson Pinheiro, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, assassinado em 1980 por sua atuação em defesa dos trabalhadores, dos posseiros e da floresta. Sua trajetória tornou-se uma das referências da organização sindical e da resistência dos povos da floresta no Acre.

Atualmente, Brasiléia possui população estimada em pouco mais de 28 mil habitantes e uma área territorial de aproximadamente 3,9 mil quilômetros quadrados. O município mantém posição estratégica no Alto Acre, próximo à fronteira boliviana e à rota de integração do Brasil com os países andinos e o Oceano Pacífico. IBGE

Apesar das mudanças provocadas pelo crescimento urbano, Brasiléia preserva características que atravessam gerações: a hospitalidade, a simplicidade e a capacidade de acolher quem chega. É uma cidade onde histórias brasileiras e bolivianas se encontram todos os dias e onde a fronteira representa muito mais união do que distância.

Celebrar Brasiléia é reverenciar sua memória, reconhecer a contribuição de quem veio antes e renovar a esperança no futuro. Da antiga Vila Brasília à cidade contemporânea, passaram-se 116 anos de desafios, conquistas e transformações.

As antigas imagens registradas por Luiz Thomaz Reis mostram uma cidade ainda em seus primeiros passos. Hoje, mais de um século depois, Brasiléia continua olhando para o futuro sem esquecer suas origens.

Salve Brasiléia, sentinela da fronteira, cidade de um povo trabalhador, resistente e hospitaleiro. Uma terra que nasceu às margens do Rio Acre, cresceu abraçada a Cobija e permanece escrevendo, todos os dias, novas páginas de sua história.

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