Partido que governou o Acre durante 20 anos, elegeu governadores, senadores, deputados e prefeitos, hoje amarga uma das maiores crises de sua história. Com apenas quatro vereadores eleitos em 2024 nos 22 municípios acreanos e mais uma derrota de Jorge Viana em 2026, a legenda parece incapaz de compreender que o eleitorado mudou e que seu passado já não garante votos.
Houve um tempo em que falar de política no Acre era praticamente falar do Partido dos Trabalhadores (PT). A legenda dominava o cenário estadual, comandava o Palácio Rio Branco, exercia influência nas prefeituras, ocupava espaços importantes no Legislativo e reunia algumas das principais lideranças políticas do estado.
Durante duas décadas, entre 1999 e 2018, o PT governou o Acre com Jorge Viana, Binho Marques e Tião Viana. Construiu uma estrutura política poderosa, consolidou alianças e transformou a chamada Frente Popular em uma força eleitoral que parecia difícil de ser derrotada.
Mas o tempo passou, a sociedade mudou, novas lideranças surgiram e o eleitorado começou a procurar outros caminhos. O que não mudou, pelo menos na velocidade necessária, foi a mentalidade de parte da direção petista.
O partido que durante anos se acostumou a dar as cartas na política acreana parece não ter aprendido a lidar com a perda do poder. E, pior, ainda demonstra dificuldades para reconhecer que sua antiga hegemonia acabou.
A soberba política, a resistência à autocrítica, a dependência de lideranças tradicionais e a incapacidade de renovar seus quadros ajudam a explicar um processo de decadência que não começou agora, mas que se aprofundou a cada eleição.De 20 anos no poder a apenas quatro vereadores no Acre
Os números revelam, de maneira contundente, o tamanho do encolhimento petista.
Nas eleições municipais de 2024, o PT conseguiu eleger apenas quatro vereadores entre as 241 cadeiras distribuídas pelos 22 municípios acreanos. Isso representa somente 1,66% das vagas.
Em 2020, o partido havia conquistado 18 cadeiras. Quatro anos depois, perdeu 14 delas, uma redução de quase 78% de sua representação municipal. Na capital, Rio Branco, elegeu apenas André Kamai.
Vereadores do PT em 2020
18
Vereadores do PT em 2024
4
Cadeiras conquistadas nas eleições municipais de 2024
Comparação entre partidos no Acre, com destaque para o desempenho do PT.
Dados eleitorais de 2024 compilados pelo Radar do Voto a partir do TSE. A contagem considera a filiação na eleição, não eventuais mudanças partidárias posteriores.
O quadro se torna ainda mais preocupante quando se observa que o PT não elegeu nenhum prefeito em 2024. Em 2004, havia conquistado dez prefeituras; em 2020, quatro.
Não se trata de uma derrota isolada, mas de uma trajetória de esvaziamento político.
Um partido que governou o Acre por 20 anos e hoje não consegue eleger sequer cinco vereadores precisa reconhecer que seu problema vai muito além da força dos adversários.
O PT perdeu espaço nas ruas, nas comunidades, nos municípios e, principalmente, na confiança de uma parcela significativa do eleitorado.
A soberba de quem acredita que o passado ainda ganha eleição
Talvez um dos maiores erros do PT acreano tenha sido confundir sua história com uma espécie de direito permanente ao poder.
A legenda construiu realizações que fazem parte da história política do estado. Entretanto, nenhum partido pode acreditar que conquistas antigas sejam suficientes para garantir apoio popular indefinidamente.
O eleitor não tem obrigação de votar eternamente em quem governou no passado.
O PT parece ter dificuldade para compreender essa realidade. Em vez de apresentar uma renovação profunda, insiste em figuras conhecidas, discursos repetidos e estratégias que já não encontram a mesma receptividade de outros tempos.
A impressão transmitida é a de um partido que cobra reconhecimento por sua história, mas oferece poucas respostas novas para os problemas atuais.
E aqui cabe uma crítica necessária: a soberba política começa quando uma organização deixa de perguntar por que o povo não vota mais nela e passa a agir como se o povo estivesse errado por não votar.
O resultado dessa postura aparece nas urnas.
Não basta culpar o bolsonarismo, a direita, as redes sociais ou o conservadorismo acreano. Esses fatores fazem parte do ambiente político, mas não explicam sozinhos por que o PT perdeu tanta força.
A responsabilidade também precisa ser procurada dentro do próprio partido, em suas escolhas, em seus dirigentes e na maneira como se relaciona com a sociedade.
Jorge Viana: a derrota de 2026 pode representar o encerramento de uma era
A situação de Jorge Viana é emblemática.
Ex-prefeito de Rio Branco, ex-governador por dois mandatos e ex-senador da República, Viana foi um dos políticos mais influentes da história recente do Acre.
Seu nome esteve diretamente associado ao período de maior força do PT no estado.
Entretanto, o prestígio acumulado durante décadas já não se transforma automaticamente em vitória eleitoral.
Nas eleições de 2026, Jorge Viana tentou retornar ao Senado, mas terminou a disputa sem conquistar uma das duas vagas. Recebeu 124.063 votos, correspondentes a 14,17% dos votos válidos para o cargo, ficando atrás dos eleitos Márcio Bittar e Mara Rocha.
O resultado representa mais um golpe na antiga estrutura petista.
É verdade que 124 mil votos demonstram que Jorge Viana ainda possui uma base eleitoral relevante. Mas também revelam que sua força individual já não é suficiente para recolocar o partido no protagonismo que teve no passado.
Diante desse cenário, surge uma pergunta inevitável: estaria Jorge Viana chegando ao fim de sua trajetória eleitoral?
Não existe confirmação de aposentadoria política, mas uma eventual decisão de se afastar das disputas seria compreensível depois de sucessivos resultados desfavoráveis.
O problema maior, entretanto, não é a possível saída de Jorge Viana. É o fato de o PT não ter conseguido preparar, ao longo de tantos anos, uma nova geração de lideranças com capacidade de ocupar seu espaço.
O partido envelheceu politicamente ao lado de suas principais referências e não conseguiu construir uma sucessão à altura da estrutura que um dia comandou.
O PT perdeu até a capacidade de apresentar candidaturas próprias
Outro sinal evidente de enfraquecimento apareceu nas eleições municipais de 2024.
Naquele pleito, o PT apresentou candidaturas próprias a prefeito em apenas três municípios e ficou fora das coligações majoritárias de nove cidades acreanas.
Em diversas localidades, precisou apoiar candidatos de outras legendas, inclusive de partidos situados no campo político adversário.
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A situação demonstra como uma legenda que anteriormente liderava grandes alianças passou a depender de composições para preservar alguma participação nas disputas.
As alianças são legítimas na democracia. O problema surge quando deixam de ser instrumentos de expansão política e passam a funcionar como alternativas de sobrevivência eleitoral.
O PT, que antes atraía lideranças de outros partidos para sua estrutura, passou a assistir à migração de antigos aliados e quadros políticos para legendas concorrentes.
A pergunta é simples: como um partido que teve o governo estadual durante duas décadas chegou ao ponto de não possuir candidatos competitivos em boa parte dos municípios?
A resposta exige mais do que reuniões partidárias, discursos de resistência ou acusações contra adversários. Exige reconhecer erros.
Um partido que não se renova corre o risco de desaparecer politicamente
A crise do PT acreano também expõe uma dificuldade que ultrapassa as fronteiras do estado: a necessidade de renovação de lideranças, métodos e linguagem.
No plano nacional, o partido ainda possui uma estrutura expressiva e a liderança de Luiz Inácio Lula da Silva, não sendo correto afirmar que esteja próximo de desaparecer. Entretanto, sua dependência da figura de Lula levanta um questionamento semelhante ao enfrentado no Acre: quem ocupará o espaço das lideranças históricas?
No Acre, a resposta permanece pouco clara.
Onde estão os novos nomes capazes de mobilizar a juventude? Onde estão as lideranças municipais que poderiam reconstruir o partido? Onde está uma proposta política que dialogue com o pequeno empreendedor, o trabalhador autônomo, o produtor rural e as novas gerações?
Não se pode disputar o futuro olhando permanentemente pelo retrovisor.
O PT precisa compreender que o Acre de 2026 não é o Acre de 1998. O eleitorado tem outras preocupações, outros meios de informação e outras expectativas em relação aos seus representantes.
A política mudou, mas parte do discurso petista parece ter permanecido presa a um tempo em que a força da legenda bastava para organizar o debate estadual.
O fim de um ciclo que o PT parece não querer aceitar
A derrota eleitoral faz parte da democracia. Partidos crescem, perdem força e podem voltar ao poder. O que determina sua capacidade de recuperação é a disposição para reconhecer os próprios erros.
No caso do PT acreano, os resultados acumulados indicam que a legenda chegou a uma encruzilhada histórica.
Pode continuar apostando na memória de seus antigos governos, na popularidade de lideranças que já enfrentaram diversas eleições e na esperança de que o eleitorado volte a enxergá-la como alternativa.
Ou pode abandonar a postura de superioridade política, abrir espaço para novos nomes, reconstruir suas bases municipais e apresentar propostas conectadas à realidade do Acre.
O primeiro caminho tende a aprofundar o isolamento. O segundo exige humildade, algo que parte de sua direção parece ter dificuldade em demonstrar.
É preciso reconhecer que o PT não foi derrotado apenas por seus adversários. Foi também prejudicado por decisões próprias, pela incapacidade de renovação e por uma estrutura que não acompanhou as transformações políticas do estado.
A soberba, quando substitui a autocrítica, transforma derrotas eleitorais em crises permanentes.
E o partido que não consegue ouvir a mensagem das urnas acaba condenado a recebê-la novamente, eleição após eleição.
O PT já foi o maior símbolo de poder político no Acre. Hoje, seus quatro vereadores eleitos em 2024 representam uma pequena fração daquela força.
Jorge Viana, Tião Viana, Binho Marques e tantas outras lideranças fizeram parte de um ciclo histórico que não pode ser apagado. Mas também não pode ser eternizado por vontade de seus antigos protagonistas.
A política não concede mandato vitalício a partidos, famílias ou lideranças.
O eleitor tem o direito de mudar, e os partidos têm a obrigação de acompanhar essa mudança.
A grande tragédia política do PT acreano talvez não seja simplesmente ter perdido o poder. É ter passado tantos anos no comando do estado e, ainda assim, não ter conseguido construir uma estrutura renovada capaz de sobreviver eleitoralmente à geração que o levou ao topo.
O PT do Acre não precisa apenas trocar candidatos. Precisa abandonar a soberba, reconhecer que seu tempo de hegemonia terminou e entender que nenhuma legenda é maior do que a vontade popular.
Porque, na democracia, quem não aprende com as derrotas corre o risco de se tornar apenas uma lembrança de quando esteve no poder.

