Pesquisas viram “guerra de números” no Acre e apresentam cenários completamente diferentes para o Governo

Levantamentos realizados praticamente no mesmo período colocam ora Mailza Assis, ora Alan Rick na liderança; distância entre os candidatos muda radicalmente de uma pesquisa para outra

A poucos dias das eleições de 2026, o eleitor acreano se depara com uma situação que merece questionamentos: afinal, qual pesquisa está conseguindo retratar com maior precisão o verdadeiro cenário da disputa pelo Governo do Acre?

A pergunta ganhou ainda mais força nesta quinta-feira, 1º de outubro, depois da divulgação de novos levantamentos que apresentam resultados profundamente diferentes entre si.

A pesquisa Data Continental aponta Alan Rick (Republicanos) com 43,3% das intenções de voto no cenário estimulado, contra apenas 23,2% da governadora e candidata à reeleição Mailza Assis (PP). Uma diferença de 20,1 pontos percentuais em favor de Alan.

O levantamento ouviu 1.200 pessoas entre os dias 26 e 30 de setembro, tem margem de erro de 2,8 pontos percentuais e nível de confiança de 95%. A pesquisa está registrada na Justiça Eleitoral sob o número AC-01961/2026.

O problema para quem tenta compreender o cenário eleitoral é que outros levantamentos recentes mostram praticamente o inverso.

Também divulgada nesta quinta-feira, pesquisa Data Control coloca Mailza Assis com 40,5%, enquanto Alan Rick aparece com 28,8%. Nesse caso, a vantagem é de 11,7 pontos para Mailza. O levantamento ouviu mil eleitores entre 24 e 30 de setembro e está registrado sob o número AC-09068/2026.

Ou seja: enquanto uma pesquisa aponta Alan 20,1 pontos à frente de Mailza, outra coloca Mailza 11,7 pontos à frente de Alan.

A diferença entre esses dois retratos é enorme. Considerando a distância relativa entre os dois principais candidatos, há uma inversão superior a 31 pontos percentuais de um levantamento para o outro.

E não se trata apenas de pesquisas realizadas em momentos muito distantes da campanha.

Delta também coloca Mailza na liderança

A Agência Delta divulgou na quarta-feira, 30 de setembro, levantamento em que Mailza aparece com 40,62%, contra 30,50% de Alan Rick. A vantagem da governadora nesse estudo é de 10,12 pontos.

A Delta entrevistou presencialmente 800 eleitores entre os dias 23 e 29 de setembro. A margem de erro informada é de 3,5 pontos percentuais e o registro eleitoral é AC-00288/2026.

Em levantamento anterior da própria Delta, realizado entre 14 e 19 de setembro, Mailza também aparecia na liderança, com 39,63%, enquanto Alan tinha 31,39%. Foram entrevistados 1.201 eleitores, com margem de erro de três pontos percentuais.

A Quaest apresentou outro resultado favorável à atual governadora. Pesquisa divulgada em 25 de setembro apontou Mailza com 36% e Alan Rick com 28%, seguida por Tião Bocalom, com 15%. Foram ouvidos 804 eleitores entre os dias 21 e 24 de setembro, com margem de erro de três pontos percentuais.

Por outro lado, não é somente a Data Continental que encontrou Alan na liderança. O IPSensus, em pesquisa realizada entre 19 e 24 de setembro, apontou Alan Rick com 38,1% e Mailza com 29,4%. O instituto ouviu mil eleitores e informou margem de erro de 3,1 pontos percentuais.

Afinal, qual é o verdadeiro cenário?

É justamente aí que surge uma questão legítima para o eleitor acreano.

Pesquisas eleitorais são fotografias de determinado momento, construídas a partir de amostras da população. Institutos podem utilizar diferentes desenhos amostrais, distribuição geográfica dos entrevistados, formas de abordagem, ponderações e métodos de coleta.

Por isso, diferenças entre pesquisas são possíveis e não constituem, por si só, prova de irregularidade ou manipulação.

Mas a dimensão das divergências observadas no Acre merece atenção.

Não estamos falando simplesmente de um instituto apontando Mailza com 36% e outro com 38%, ou de Alan aparecendo alguns pontos acima ou abaixo. Existem pesquisas recentes indicando Mailza com vantagem de aproximadamente 10 a 12 pontos, enquanto outra, realizada praticamente no mesmo período, apresenta Alan Rick 20 pontos à frente.

São cenários politicamente muito diferentes.

Em um levantamento, o eleitor recebe a informação de que Mailza lidera com relativa vantagem. Em outro, divulgado praticamente ao mesmo tempo, é informado de que Alan possui uma liderança ainda maior.

Primeiro ou segundo turno?

A divergência também dificulta qualquer interpretação segura sobre a possibilidade de a eleição terminar no primeiro turno ou seguir para uma segunda votação.

No Brasil, para ser eleito governador no primeiro turno, o candidato precisa obter mais da metade dos votos válidos. Pesquisa eleitoral, entretanto, não é apuração de votos: indecisos podem mudar de posição, eleitores podem não comparecer e votos brancos e nulos não entram no cálculo dos votos válidos na eleição.

Portanto, transformar os percentuais de uma pesquisa isolada em certeza de vitória no primeiro turno ou de realização de segundo turno seria precipitado.

E justamente por isso a disparidade entre os levantamentos aumenta a dificuldade para o cidadão que procura nas pesquisas uma referência sobre o estágio atual da disputa.

Pesquisas precisam ser analisadas além da manchete

Diante de números tão diferentes, o eleitor deve olhar além do percentual estampado na manchete.

É importante observar quem realizou a pesquisa, quem contratou, quantas pessoas foram entrevistadas, em quais municípios ocorreram as entrevistas, período de campo, método de coleta, margem de erro, questionário e critérios utilizados para construir a amostra.

O registro de uma pesquisa na Justiça Eleitoral é obrigatório, mas isso não significa que diferentes institutos necessariamente chegarão a resultados semelhantes.

Na reta final da campanha acreana, portanto, talvez a informação mais segura que o conjunto desses levantamentos permita afirmar seja justamente esta: há uma divergência expressiva entre as pesquisas sobre quem lidera a corrida pelo Palácio Rio Branco.

Enquanto Data Control, Delta e Quaest apresentam Mailza Assis na primeira posição, Data Continental e IPSensus colocam Alan Rick à frente.

Isso não autoriza, sem evidências adicionais, acusar qualquer instituto de fraude. Mas autoriza o eleitor, a imprensa e a sociedade a cobrarem transparência metodológica e explicações claras sobre como levantamentos realizados em períodos tão próximos conseguem produzir fotografias tão diferentes da mesma eleição.

No fim das contas, pesquisa é instrumento de medição, não resultado eleitoral.

A resposta definitiva sobre quem estava mais próximo da realidade virá das urnas, no próximo domingo, quando os votos dos acreanos serão efetivamente contabilizados.

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