Jorge Viana termina disputa pelo Senado em quarto lugar, Virgílio Viana recebe 4.688 votos para deputado federal e PT sai das eleições de 2026 sem conquistar cadeira própria no Congresso ou na Aleac
Durante duas décadas, falar em política no Acre significava, inevitavelmente, falar no Partido dos Trabalhadores e na família Viana. Jorge e Tião Viana estiveram no centro de um projeto político que comandou o Governo do Estado durante 20 anos consecutivos e construiu uma das estruturas partidárias mais fortes da história recente acreana.
O resultado das eleições de 2026, entretanto, apresenta um cenário completamente diferente. Os números das urnas mostram uma forte retração eleitoral tanto do PT quanto de nomes ligados à família Viana, que já ocupou simultaneamente alguns dos cargos mais importantes da política acreana.
A maior demonstração dessa mudança veio na disputa pelo Senado. Jorge Viana (PT), ex-prefeito de Rio Branco, ex-governador por dois mandatos e ex-senador, tentou retornar ao Congresso Nacional, mas terminou apenas na quarta colocação.
Com 100% das urnas apuradas, Jorge recebeu 124.063 votos, equivalentes a 14,17% dos votos válidos para senador. As duas vagas ficaram com Márcio Bittar (PL), que conquistou 223.972 votos, ou 25,59%, e Mara Rocha (Republicanos), com 157.104 votos, correspondentes a 17,95%. Gladson Cameli (PP), com 145.244 votos (16,59%), também terminou à frente de Jorge Viana, ocupando a terceira posição.
O resultado ganha dimensão política principalmente quando comparado à trajetória de Jorge Viana. Ele foi prefeito de Rio Branco entre 1993 e 1996, governou o Acre por dois mandatos consecutivos, entre 1999 e 2006, e posteriormente representou o estado no Senado, entre 2011 e 2019.
Nova geração dos Viana também não conseguiu chegar ao Congresso
Outro resultado que chama atenção ocorreu na disputa pela Câmara dos Deputados.
Virgílio Viana (PV), representante da nova geração da família, recebeu 4.688 votos, correspondentes a aproximadamente 1% dos votos válidos para deputado federal, e não conseguiu uma das oito vagas destinadas ao Acre.
Virgílio é filho de Tião Viana e sobrinho de Jorge Viana. Durante a campanha, buscou construir uma identidade política própria e chegou a destacar publicamente que não pretendia ser visto apenas como herdeiro político da família. Sua candidatura pelo PV, e não pelo PT, também foi apresentada como uma demonstração de independência política.
Mesmo assim, a força histórica do sobrenome Viana não foi suficiente para impulsioná-lo a uma votação capaz de colocá-lo na disputa efetiva por uma cadeira.
O resultado também mostra que o expressivo capital político acumulado por Tião Viana ao longo de décadas não se transferiu automaticamente para a candidatura do filho.
Tião construiu uma das carreiras mais importantes da história recente da política acreana. Foi eleito senador e exerceu dois mandatos no Senado, chegando inclusive à presidência interina da Casa. Depois, venceu a eleição para governador em 2010 e foi reeleito em 2014, permanecendo no comando do Acre até o fim de 2018.
Na campanha deste ano, o próprio Tião entrou em campo para pedir votos ao filho, divulgando mensagem aos eleitores na qual relembrou realizações de seus oito anos à frente do governo estadual e defendeu a eleição de Virgílio para a Câmara Federal.
As urnas, porém, mostraram que a lembrança das administrações anteriores e o peso histórico da família já não produzem, por si sós, o mesmo resultado eleitoral de outras épocas.
PT termina eleição sem senador, deputado federal ou deputado estadual
A situação não ficou restrita à família Viana.
As eleições de 2026 produziram um dos resultados mais duros da história recente do Partido dos Trabalhadores no Acre.
O partido não conseguiu eleger nenhum senador, nenhum deputado federal e nenhum deputado estadual próprio pelo estado.
Para a Câmara dos Deputados, Márcio Alécio recebeu 9.579 votos e André Kamai obteve 9.501, mas nenhum conquistou mandato. Na disputa pela Assembleia Legislativa, Cesário Braga recebeu 3.878 votos e também ficou de fora.
A Federação Brasil da Esperança conseguiu representação na Aleac com Edvaldo Magalhães, eleito pelo PCdoB com 9.273 votos, mas o PT propriamente dito terminou sem cadeira própria na Assembleia.
Na Câmara Federal, embora a federação tenha conseguido representação por meio de Perpétua Almeida, do PCdoB, nenhum candidato filiado ao PT conquistou uma das oito vagas acreanas. Nacionalmente, o PT elegeu 70 deputados federais em 2026, mas o Acre esteve entre os sete estados nos quais a legenda não conseguiu eleger deputado federal.
Apenas quatro vereadores eleitos pelo PT em 2024
A perda de espaço não começou nesta eleição.
Nas eleições municipais de 2024, o PT elegeu somente quatro vereadores em todo o Acre, equivalentes a aproximadamente 1,7% das 241 cadeiras existentes nas câmaras municipais dos 22 municípios.
Na capital, Rio Branco, a legenda conseguiu eleger apenas André Kamai.
Para efeito de comparação, o PP conquistou 69 das 241 cadeiras de vereador naquele pleito. Os números mostram o tamanho da diferença entre a estrutura eleitoral atual do PT e a influência que o partido já exerceu no estado.
De 20 anos consecutivos no governo à ausência de cadeiras próprias
O contraste histórico é significativo.
A chamada Frente Popular do Acre, liderada pelo PT durante grande parte de sua trajetória, governou o estado durante 20 anos consecutivos, começando com Jorge Viana em 1999, passando por Binho Marques e chegando aos dois mandatos de Tião Viana.
Jorge Viana, particularmente, tornou-se um dos principais símbolos daquele período. Foi prefeito da capital, governador por duas vezes e senador da República. Tião Viana, por sua vez, acumulou longa passagem pelo Senado antes de governar o estado por oito anos.
Em 2026, porém, o cenário eleitoral encontrado pela família é muito diferente daquele observado no auge do projeto político petista.
Jorge Viana ficou em quarto lugar para o Senado, Virgílio Viana não conquistou vaga na Câmara dos Deputados e o PT não conseguiu eleger parlamentar próprio para nenhuma das três representações legislativas acreanas colocadas em disputa — Senado, Câmara Federal e Assembleia Legislativa.
As urnas redesenham o peso político de uma família histórica
Classificar esse processo como uma “decadência política” é uma interpretação — e não um dado objetivo —, mas os resultados eleitorais permitem afirmar que houve uma forte redução da representação institucional do PT e do peso eleitoral da família Viana no Acre.
Isso não apaga a importância histórica de Jorge e Tião Viana, nem os mandatos conquistados pela legenda ao longo de décadas. Mas evidencia que o eleitorado acreano passou por profundas transformações e que o sobrenome que durante anos esteve associado ao centro do poder estadual enfrenta hoje dificuldades muito maiores para transformar seu legado político em votos e mandatos.
Talvez o dado mais simbólico dessa mudança esteja justamente na comparação entre duas épocas: a família que teve dois irmãos ocupando sucessivamente posições de governador e senador agora vê Jorge Viana terminar uma eleição para o Senado na quarta colocação e a nova geração, representada por Virgílio, encerrar sua primeira disputa para deputado federal com 4.688 votos.
Ao mesmo tempo, o PT, partido que esteve à frente do Governo do Acre durante duas décadas consecutivas, chega ao fim das eleições de 2026 sem senador, deputado federal ou deputado estadual próprio eleito pelo estado.
Mais do que uma derrota isolada, os números revelam uma mudança profunda na correlação de forças da política acreana. Para os Viana e para o PT, o desafio agora será descobrir se esse afastamento das principais estruturas de poder representa apenas mais um ciclo eleitoral desfavorável ou uma transformação política de longo prazo no Acre.

